Amazônia, êxtase e terror

O Brasil – que foi um dos líderes na defesa do ambientalismo – chega, à Conferência Mundial do Clima, não apenas como um pária, mas, também, como um infrator. Aceitando ser vassalo daquele monstruoso Donald Trump, Bolsonaro se nivelou a Tony Blair, premiê britânico, que, de tanto lamber as botas do então presidente George W.Bush, foi chamado pelo povo britânico de “poodle de Bush”.
A Amazônia é um patrimônio da Humanidade. E será ignorância, nacionalismo rastaqueiro, interesses mórbidos proclamar que aquele santuário da natureza seja brasileiro. Pode até ter sido. Mas deixou de ser. O Brasil está deserdado da Amazônia como aquele filho pródigo que, recebendo tesouros inalienáveis do pai, não o valorizou, dilapidando. Quando o herdeiro é irresponsável, a família tem o direito e o dever de interditá-lo. Bolsonaro e sua camarilha buscam a destruição de um patrimônio da qual depende a vida do Planeta.
Sou fascinado pela Amazônia desde os bancos escolares. Professores descreviam-na com paixão, com orgulho, narrativas sempre envolvidas por mistérios. A grande referência era Euclydes da Cunha que, extasiado pela Amazônia, viu-a como o Paraíso Perdido e o Inferno Verde. Aquilo tudo nos fascinava. Ao mesmo tempo, um livro poderoso advertia sobre os perigos que ameaçavam: “A Amazônia e a cobiça internacional”, de Arthur Reis. E outros e mais outros. O ciclo desastroso da borracha, a Fordlandia, a grande farsa de uma nova civilização. A povoação promovida pela ditadura militar, a devastação para construir a Belém-Brasília, as queimadas para servirem a pastagem, a proliferação criminosa do gado, a presença de multinacionais como Cargill, Margi, Mcdonalds devastando a floresta; o garimpo criminoso.
Quis, precisei, foi obsessão minha conhecer pelo menos um pedacinho da Amazônia. Em viagens pelo Norte, sobrevoei por horas e horas aquele oceano sem fim de árvores. Mas quis pisar no solo amazônico, dar pelo menos uns passos pela floresta. Consegui-o por três vezes: através de Roraima, de Manaus, de Belém. Participei de pequenos grupos levados por um guia indígena. E quase caí de joelhos em oração por sentir-me no interior de um santuário. Não era uma floresta, a mata. Era um santuário onde se abrigavam todos os deuses da natureza. Andar, caminhar por aquele solo era como macular o lugar sagrado. Havia lugares tão sombrios, as árvores imensas toldando a luz do Sol que o guia nos orientava com lanternas. O êxtase de sentir-se no momento da criação do Mundo, no Gênesis, era abalado pelo medo, pelo terror que parecia esconder-se nas sombras, através dos sons de animais, de pássaros alvorotados, pelo gemer das folhas de árvores que pareciam indignadas com a presença de homens civilizados.
Minha conclusão final, consciente, honesta, desprendida: a Amazônia não pode ser administrada por brasileiros, peruanos, bolivianos. A Amazônia pertence à Humanidade, como pulmão do mundo, como fonte de riquezas, de plantas e ervas medicinais. O sonho das nações, desde a II Guerra Mundial, foi a de um Governo Mundial, que se limitou, porém, à criação das Nações Unidas. A Amazônia – sendo ferida de morte – clama por um governo mundial que tenha dignidade para reconhecer a dignidade sagrada daquele santuário mundial.Quando os herdeiros são perdulários nos cuidados com o grande tesouro recebido precisam ser interditados. Os governos brasileiros destroem um patrimônio que é da Humanidade. São perdulários. Não podem ser guardiões daquela monumentalidade que Euclydes da Cunha chamou de Paraíso Perdido (redescoberto) e Inferno Verde, tantos os seus mistérios e segredos.

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Cecílio Elias Netto

Cecílio Elias Netto

Jornalista e escritor

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